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Brasileirão de R6: a representatividade de Miranda, a primeira mulher a participar do campeonato

POSTADO POR Karolina Florindo 22/04/2021

Recentemente, a lineup da INTZ sofreu uma alteração, que possibilitou uma oportunidade para a jogadora Rafaela Miranda estrear no campeonato brasileiro. E, com isso, fazer história sendo a primeira mulher a atuar no Brasileirão de R6.  

Introdução ao caso – Miranda na INTZ

Miranda, a primeira mulher a jogar o campeonato brasileiro de R6

Miranda, a primeira mulher a jogar o Campeonato Brasileiro de Rainbow Six – Foto: Divulgação/INTZ

As rodadas do Brasileirão de Rainbow Six (BR6) continuam eletrizantes, obtendo uma tabela de pontos oscilante e mais emocionante a cada rodada. Além dos pontos, clutches decisivos e jogadas de alto nível, a competição, para nós torcedoras, ficou ainda mais emocionante neste último final de semana.

O jogador Vinicius “Vnx”, por problemas de saúde, não jogou na segunda semana de abril do campeonato. O que fez com que a INTZ tivesse que repensar a formação de seu time. Foi selecionada uma mulher para substituí-lo, no caso, Rafaela “Miranda”,  jogadora da lineup feminina da INTZ

A estreia da jogadora no Brasileirão de R6 não foi fácil, visto que a equipe se encontra na lanterna. Com a derrota, no sábado (10) para a FURIA de 7×5, a INTZ somou seis derrotas ao longo do campeonato. Contudo, essa foi a partida em que houve uma menor diferença entre o placar da partida.

No dia seguinte (11), houve o confronto com a FaZe Clan, indo contra a maré, quebrando a má fase, os intrépidos conquistaram a primeira vitória e garantiram seus três pontos no campeonato, além de desbancar a liderança do adversário.

Somado ao desafio da jogadora de integrar um time que já possuía entrosamento previamente, e que estavam sem pontuar há algum tempo, houve também algumas adversidades fora das telas.

Em suas redes sociais, recebeu mensagens de ódio, pelo simples fato de jogar e atuar como pró player de R6. Ainda foi possível observar uma cobrança exacerbada sobre a atuação da jogadora, tanto nos comentários durante as transmissões, quanto nas mensagens em suas redes, apesar de Miranda ter apresentado um bom desempenho em suas duas partidas no Brasileirão de R6. 

Representatividade feminina nos esports

O cenário dos eSports vem ganhando cada vez mais adeptos, de acordo com a 8ª edição da Pesquisa Game Brasil, cerca de 51,5% do público gamer é feminino. É notório observar que, por mais que este nicho venha conquistando espaços, ainda nos deparamos com ausências, seja de incentivo, políticas de inclusão, planejamento e oportunidades.

A inclusão passa a ser um tópico descartado pela sociedade, o que endossa ainda mais a discriminação e o preconceito no cenário gamer. Mesmo o publico feminino se tornando maioria estatística, ainda somos encaradas como uma minoria. 

Não estava nos planos de nenhuma organização promover a participação de uma mulher no BR6. Isso foi algo inesperado, uma oportunidade de ouro que acabou surgindo.

Essa ação fez com que as pessoas refletissem sobre os porquês de não haver (mais) mulheres no contexto de Rainbow Six. Ao mesmo tempo, houve ofensas e reproduções de machismo, disfarçados de opiniões pessoais, sobre a participação feminina em campeonatos e até eventos “série A”.

As mulheres no R6

Mulheres presentes no cenário competitivo de R6

Foto: Divulgação/INTZ

Quando a jogadora Danielle “Ch3rn4”, em 2018, foi indicada na categoria “Melhor atleta de Rainbow Six Siege” no Prêmio eSports Brasil, as redes sociais entraram em pólvora. Em seu twitter, “Ch3rn4” revelou que sofreu ataques de ódio e mensagens negativas sobre sua indicação.

Ainda que não tenha conquistado o prêmio, fez história ao ser indicada. Atualmente ela faz parte da line feminina de R6 da INTZ, junto com “Miranda”.  

E essa situação desconfortável e intimidadora continua a ocorrer com streamers, torcedoras e jogadoras. No começo deste ano, a caster e streamer, Jessica “JessGOAT”, comentou em suas redes sociais a dificuldade de realizar seu trabalho e como a toxicidade, o assédio e o machismo estavam presentes em seu dia a dia. Isso a fez se afastar da internet, e consequentemente da sua carreira, por um tempo, pois enfrentar todas essas violências estava fazendo mal à sua saúde.

A australiana retornou ao trabalho neste mês e segue comentando o “European League 2021” de R6. 

Precisamos falar mais sobre representatividade feminina!

Acaba sendo pouco comum jogadores homens receberem mensagens de ódio – os diminuindo e ofendendo – ou questionando sua competência por conta de gênero. Ao passo que nós, mulheres, a todo o momento temos que nos provar, dentro e fora das quadras ou telas. 

Em entrevista ao “Força Tarefa”, programa realizado pelo R6esportsBR, “Miranda” revelou que há um machismo estruturado no mundo dos esports e que cabe a todos, não só mulheres, combatê-lo diariamente. Somente por meio do combate e do incentivo pelas organizações que é possível fortalecer e consolidar o cenário competitivo feminino.

No final da conversa, quando a questionaram se possui o desejo de jogar e/ou continuar na série A, ela relatou que, durante essas partidas, viveu momentos de muita adrenalina e emoção, então irá treinar para crescer e desfrutar das mesmas oportunidades que os players masculinos do Brasileirão de R6. 

O interesse do público feminino por jogos e esportes sempre existiu, entretanto continuamos a enfrentar a invisibilidade dentro do cenário. Cada conquista que uma menina ou mulher consegue é sentida por todas. Visto que, até o momento, por mais que a realidade estejam mudando e se afastando das ausências, continuamos sendo uma das ‘maiorias minorizadas’. 

Metonímia mais que necessária

A metonímia é uma figura de linguagem utilizada para a substituição de um termo por outro, havendo necessariamente uma relação de sentido entre os termos. Por exemplo, usamos “brasileiro” como uma ideia de coletivo, “o brasileiro está cansado”. 

Pode-se pensar que “Miranda” correspondeu a inúmeras mulheres durante as partidas. Quando ela venceu, todas vibraram e compreenderam a relevância disso. A participação concreta da jogadora representa todo o desejo abstrato do público feminino de um dia poder alcançar um espaço nas grandes competições.

Para muitos, “Miranda” ter jogado duas partidas no campeonato de R6, pode ser visto como uma situação corriqueira. Contudo, foi um grande marco.

A jogadora carregou o fardo de ser a primeira mulher a desbravar o Brasileirão. Claro que houve o comprometimento com o time, mas também com as mulheres que acompanham o cenário de R6, já que sabemos o quão significativo é alcançar esse lugar, que nos é pertencente também.

Se este campeonato permite a participação de equipes mistas, por que somente há jogadores, analistas e coaches homens? 

Essa preferência pelo gênero masculino mascara problemáticas da nossa sociedade, que prefere isentar-se, não promovendo o debate sobre a relevância de combater o machismo e de como o respeito é essencial para a construção de um ambiente receptivo para todas as pessoas. 

O torneio, somente, em sua quinta edição contou com a participação de uma mulher, e isso é extremamente importante para nós e para o cenário de Rainbow Six! Ter esse reconhecimento é fundamental e se configura como um reforço para que mais meninas e mulheres continuem, ou até comecem, no mundo dos esports.

A visibilidade se configura com um modelo para nós, com a “Miranda” no R6, foi possível nos enxergarmos. Essa representatividade é algo que nos movimenta e motiva a continuarmos nossa luta pela ocupação de espaços que também são nossos.  

Ainda, neste mesmo ano, haverá um outro recorde dentro dos campeonatos femininos, uma vez que o Circuito Feminino de Rainbow Six Siege contará com uma premiação recorde, totalizando R$300.000,00, distanciando-se do ano passado em que as jogadoras foram premiadas somente com periféricos. Ter mais esta mudança traz à tona o caráter profissional do torneio, proporcionando visibilidade ao trabalho das jogadoras, que se empenham tanto quanto, ou até mais, que os jogadores.

Embora, possuam as mesmas habilidades e competências que os mesmos, elas ainda se deparam com entraves conservadores em suas trajetórias profissionais. Caminhamos para um horizonte mais democrático, mas, para isso, temos que contar com o apoio das organizações, dos jogadores, patrocinadores e da comunidade, para além das telas.  

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