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Nessa segunda matéria da série Girls Gang Support, vamos falar um pouquinho sobre saúde mental e o cenário dos gamers. Não é só o assédio e o machismo dentro dos jogos que podem deixar muitas mulheres deprimidas, mas também podem interferir na vida offline. É por isso que é tão importante denunciar esse tipo de conduta para tentar mudar essa realidade o quanto antes (se você ainda não leu nossa série #1 sobre como se proteger dentro do mundo online, clica aqui).

Fizemos uma entrevista incrível com a psicóloga Ariane Marsoti, 34 anos, formada em psicologia pela Faculdade Politécnica de Jundiaí e especializada em psicologia do esporte, que de uma forma muito leve, nos explicou como uma simples partida pode afetar nossa vida inteira e não só dentro do mundo online. Vale a pena ler até o fim, tá bom?!

Ariane Marsoti, atuante com pesquisas de games e comportamento desde 2015 no esports. Também é CEO do Fábrica de Lendas – Treinamentos em esport (empresa especializada em gamificação institucional, coach e consultoria para times de esport) e é uma das ativistas voluntárias da linha de frente do Ecopoint’s Community Helpline que prende melhorar o cenário através da psicoeducação da comunidade.

 

 

Praticamente 99% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio dentro dos games. É verdade que atitudes tóxicas no cenário dos esports, com certa frequência, pode realmente ser prejudicial à saúde?

“A toxicidade é reflexo de alguns fatores como ansiedade, baixa autoestima e é muito mais relacionado à pessoa que produz a toxidade do que aquela que a recebe. É claro que a pessoa que está recebendo esse comportamento acaba ficando muito comprometida e pode até entrar nesse ciclo de negatividade. O importante é manter a calma e não se deixar levar, muito menos engajar nesse tipo de situação. O que pode acontecer é que a pessoa acaba ficando tão cansada de ignorar ou ter que lidar com esse tipo de comportamento que deixa pra lá e abandona o jogo ou a comunidade.”

O assédio pode ser traumático em diferentes níveis? Recebemos relatos de mulheres que por exemplo, não usam mais microfone em partidas ou que não usam nicks femininos por medo, isso pode evoluir se for reprimido e influenciar em outras questões cotidianas? Até que ponto podemos considerar um trauma?

“Sim, cada pessoa tem uma construção de personalidade, vivência e internaliza as questões de forma diferente. Considera-se um trauma, tudo aquilo que te modifica, te machuca, porém levando em consideração o que afirmei anteriormente, pode ser que algumas meninas passem por uma experiência muito violenta e acabam não sendo tão afetadas quanto algumas que passem por experiências consideradas mais brandas. Cada indivíduo terá uma percepção e uma reação, ainda assim, precisamos ser mais fortes e não nos deixar influenciar em certos aspectos. Muitas vezes as pessoas nos machucam porque deixamos. No caso do abuso psicológico, diferente do físico, conta muito a nossa capacidade de superar ou de modificar certos comportamentos e padrões mentais. Uma dica que dou é usar do bom humor e certo deboche nas respostas, não levar para o pessoal e jamais se deixar levar pela conversa de pessoas que nem sequer conhecemos ou fazem parte das nossas vidas.”

Na nossa primeira matéria, falamos bastante sobre o cyberbullying e informamos algumas maneiras de se proteger disso. Você considera que a defesa é o melhor ataque para esse tipo de situação?

“Depende muito da defesa. Entendo que não devemos engajar de forma alguma, pois dar continuidade nesse tipo de atitude é um tiro no pé. Ainda assim não podemos nos calar diante de certas coisas. Devemos pensar de forma inteligente e bolar estratégias que ajudem a nós e outras pessoas (especialmente mulheres). Mostrar nossa qualidade e elogiar o trabalho de nossas colegas é sim uma grande arma! Devemos combater o preconceito com a informação, proteger umas às outras (mas devemos tomar muito cuidado para não cairmos no outro extremo, pois todo extremo é perigoso).”

Numa partida, o desempenho pode ser bastante prejudicado por conta dessas toxicidades. O que acontece com nosso cérebro e as associações que fazemos quando uma mulher por exemplo, se sente diminuída durante um jogo?

“Creio que em uma partida for fun, a pessoa pode sim se sentir acuada e acabar desanimando por conta dessa toxicidade, sendo assim seu desempenho fica comprometido até por causa dessa falta de motivação. Conforme um estudo realizado pela Rockfeller University em 2011, ao sofrer bullying, o indivíduo produz cortisol e ocitocina que são hormônios ligados diretamente à regulação do medo, ou seja, a pessoa que sofre bullying tem medo e isso gera estresse e ansiedade, mesmo tempos depois de ter sofrido o ato. Enquanto jogamos, temos a produção de dopamina que é um hormônio ligado ao prazer e recompensa. O que acontece é que a dopamina acaba sendo diminuída durante o controle do estresse e a pessoa passa a não sentir mais prazer em jogar. Já em relação às associações do nosso cérebro, podem ser infinitas, dependendo de nossa personalidade e vivências. Não temos como prever associações, é algo muito complexo. Ainda assim, uma pessoa que se sente diminuída tem a tendência de parar de jogar para evitar o estímulo aversivo e com isso poucas mulheres acabam se aventurando no cenário competitivo ou mesmo in game.”

O que você pode recomendar para as mulheres que convivem diariamente dentro desse cenário dos games, seja profissionalmente ou por diversão, para que se sintam melhor e consigam lidar com essas atitudes tóxicas?

“Sejam vigilantes com seu comportamento e com os das pessoas à sua volta. Entenda que não podemos controlar as ações dos outros, mas sim as nossas. Então é necessário que nos fortalecemos para que as atitudes tóxicas não nos atinjam profundamente. É um exercício diário e leva tempo, mas atingir a maturidade emocional onde aquilo que não te pertence nem te afeta, é libertador.”

E para os homens, o que eles podem fazer para ajudarem a contribuir com uma relação melhor com as mulheres e melhorarem a confiança delas dentro do jogo?

“Primeiramente melhorem a confiança em si mesmos. Só diminuímos aquilo pelo que nos sentimos ameaçados, ou seja, se eu diminuo uma mulher ou qualquer pessoa é porque eu me sinto inferior à ela e por isso preciso anulá-la. Mostre que você tem qualidade através da liderança, do ensino e do incentivo. Quanto mais pessoas estiverem vendo seu real potencial, e se houver qualidade, mais aplaudido você será.”

Você considera que iniciativa como a nossa, trás benefícios para a saúde mental? O quão você acha que isso é positivo psicologicamente para a comunidade feminina?

“Mostrar que podemos ter um lugar seguro para nos expressar e nos comunicar, é de suma importância para o desenvolvimento de melhores ideias e surgimento de novas possibilidades. Termos um lugar para discutir nossas necessidades em comum, nos apoiar e renovar nossas energias é essencial. Ainda assim, alerto para que não nos fechemos em uma comunidade por medo. Para que os homens nos “aceitem” precisamos estar lá, os tirando do lugar comum e mostrando nossa qualidade. Ter um lugar onde possamos nos sentir seguros é sempre muito bom pra nossa saúde mental mas pode nos acomodar. Sofrer faz parte do nosso crescimento, e não podemos ver o sofrimento como uma coisa sempre ruim. Devemos tirar disso novas lições, novos aprendizados, novas alternativas. Devemos usar nosso espaço seguro para nos fortalecer e conseguirmos juntas superar as barreiras lá fora.”

E quando perguntamos sobre o cenário competitivo e o mercado de trabalho, não tivemos surpresas quanto à essa realidade…

Falando um pouco sobre o competitivo no esports, você sente que há uma dificuldade em trabalhar dentro do cenário? Ainda é um tabu para algumas organizações ter uma especialista para trabalhar principalmente o psicológico do time ou você tem visto um maior interesse?

“Trabalhar com a inteligência emocional humana é sempre um tabu. As pessoas não gostam de se sentir frágeis, vulneráveis ou ter a sensação de estarem sendo invadidas de alguma forma, mas é um grande erro do senso comum. O intuito do terapeuta é fazer com que você melhore através do autoconhecimento. Dentro das equipes o nosso trabalho é fazer com que melhore a comunicação e entrosamento através do conhecimento das dinâmicas de relacionamento. Existem muitos psicólogos clínicos se aventurando nesse meio, mas é um ramo que se deve à psicologia do esporte propriamente, pois temos conhecimentos de ferramentas específicas para ajudar de forma eficaz. Para mulheres o cenário sempre foi mais difícil. Tenho certa dificuldade para conseguir contato com grandes times, um deles até me rejeitou porque não achava bom “ter mulheres na gaming house”. Hoje eles já trabalham com uma mulher, mas ainda assim, o dirigente continua me ignorando (kkk), creio que seja pessoal. Para times mais novos ou que já tiverem algum contato com o psicólogo do esporte a coisa flui melhor. Muitos ainda tem o mindset dos times de esporte regular e isso dificulta demais nosso trabalho. Somos diferentes.”

E na sua experiência em ter atuado dentro de alguns times, é difícil “ser ouvida” num cenário praticamente dominado por homens? Você passou por alguma má experiência que queira compartilhar com a gente?

“No momento que um time se propõe a aceitar nosso trabalho e nos coloca pra dentro do time, não tive dificuldade alguma. O problema é aceitar nossa inclusão. Tenho muitos colegas homens que são melhor colocados… Mas isso é geral em nossa sociedade. Ainda assim, eu enfatizo que não podemos perder a linha, nem a oportunidade de mostrar nosso trabalho. Jamais tenha medo ou se sinta menos qualificada e inferior por seu gênero, raça ou orientação sexual. Nós temos que ser fortes para quebrar essas barreiras, mostrando qualidade e como somos necessárias.”

Depois dessa entrevista MARAVILHOSA e muito esclarecedora para nós, pedi para a Ariane mandar alguma mensagem, recomendação ou incentivar alguma iniciativa…

“Quero agradecer a oportunidade, pois sempre aprendo muito com a comunidade e tento devolver a ela tudo aquilo que ela me proporciona. Desejo a todos muito sucesso e crescimento. Dizer que a saúde mental vem em primeiro lugar, pois sem vontade nem levantamos da cama. Pensando em ajudar a saúde da comunidade gamer, em conjunto com o Ecopoint, criei o Ecopoint’s Community Helpline, que abrange pessoas de diversos jogos de diversos países com o intuito de se ajudarem mutuamente. O intuito é fazer com que a comunidade seja menos tóxica, mais empática e muito mais socialmente engajada. Nós somos muitos e juntos somos mais fortes.”

Se você está passando por alguma dificuldade dentro do cenário dos jogos, mesmo que por diversão e não se sente bem com o ambiente tóxico, não se limite, clica já para conhecer o projeto do Helpline, manda uma mensagem. Eles tem alguns psicólogos no grupo que justamente estão preparados para te atender da melhor forma possível e tentar aliviar tudo isso que você está passando.

 Espero que tenham gostado e nossa série Girls Gang Support não vai parar por aqui, viu! Ainda há muito conteúdo informativo para vocês. Beijos!

Carioca da gema, 21 anos, mãe, feminista, psicóloga em formação, amante de velas, aspirante a gastronomia, a própria Felícia etc. Principalmente etc.

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